quinta-feira, 10 de julho de 2008

Dialética Voadora

Um grupo de passarinhos voando com o intuito de fugir do inverno que começa no lugar onde eles estavam inicialmente. São em seu total 10. Inicialmente consiste em apenas demonstrar esta simples cena. Pássaros voando. Depois de um certo tempo, ao ir dando um detalhe nas expressões de cada passarinho, é visto que um deles, por sinal o último, está com uma feição de completo desânimo, enquanto todos os outros apresentam um olhar concentrado, e determinados a fugir do lugar onde estavam.

E então que é dada maior atenção a este passarinho. Eis que subitamente ele para, em algum lugar que este escritor que escreve, e a voz que você ouve na sua cabeça quando lê qualquer tipo de texto, ainda não decidiu. E todos os outros sentindo a falta do companheiro se voltam para ele e perguntam em Uníssono.

-Por quê parou?
-Vocês já pararam pra pensar para onde estamos voando?
-Oras, para o mesmo lugar onde voamos nesta mesma época no ano passado- Todos responderam em uníssono.
-Mas já se pararam para perguntar por quê?
-Paramos para perguntar por quê você parou, oras – Todos novamente.
-Não! Não é isso! Digo, se vocês não pensaram nas razões pelas quais fazemos isso ano após ano, e por quê depois de tantos anos, ainda fazemos as mesmas coisas, das mesmas maneiras e vamos para o mesmo lugar! É nisso que eu perguntei se vocês já pararam pra pensar – Discursou enfaticamente o pássaro.
- Pensar em o quê? - Todos em uníssono.
-Pensar nisso tudo oras! - Respondeu o já efusivo pássaro.
-Nisso tudo o que? – Todos com cara de dúvida inocente, beirando uma cara de dúvida imbecil.
- Meu Deus! Se vocês já pensaram por que nós fazemos todo ano a mesma coisa, toda a vez que chega o inverno, ao invés de nós tentarmos nos fixar em algum lugar, migramos, e quando migramos vamos sempre para o mesmo maldito lugar. Sabem? O por quê de tudo isso? Nunca pensaram? Nunca sentiram essa angústia no peito de saber qual é o sentido de fazermos ano após ano a mesma maldita rota, vendo as mesmas coisas sempre? Nunca pararam pra pensar nisso tudo e muito mais???
-Depois de olharam com uma súbita cara de completa dúvida, todos os outros pássaros disseram com uma inocência que só apenas uma criança, ou um marido que toma um “esporro” de sua mulher poderia dizer: - Não...
-Como assim não!!!???? Como não??? No que vocês pensam quando estão voando?
- Um deles simpaticamente disse – Repita a pergunta por favor, eu me distrai com alguma coisa que eu não me lembro mais o que era.
-Perguntei no que vocês pensam quando estão voando? Quais são as coisas que passam pelas suas cabeças?-Cada um deles começou a atropelar as vozes uns dos outros com as mais diversas opiniões. A única coisa que suas opiniões tinham em comum, era justamente o fato de não terem nada em comum umas com as outras. Uns diziam – Peixes! Outros diziam – “Pássaras”. Um outro disse “Todas as formas de seduzir um golfinho!!!" Um outro até ousou dizer: “Pensar, o que seria isso? Meu Deus Pássaro uma nuvem!!!”. De qualquer forma, talvez nem seja preciso dizer que isso além de espantar o simpático pássaro, o deixou profundamente irritado. Coisa que geralmente, tanto para pássaros, quanto para humanos, é um saco.
E então o pássaro rebelde prosseguiu:
-Bom, então vocês estão me dizendo que raramente pensam em alguma coisa realmente importante?
-Peixes são importantes! – Bradou um dos pássaros que eram atacados pelas palavras do alterado pássaro rebelde.
-Não é isso que eu quis dizer, claro que são importantes.
-E gostosos – Interrompeu o mesmo pássaro.
-E gostosos, sim claro, mas o que eu queria dizer era se vocês realmente nunca se preocuparam com outra coisa que seja, como eu disse, sobre a nossa vida, algo maior que nós, sobre o sentido de tudo. Ou para onde estamos indo, ou o por quê disso tudo.
-Eu pensei uma vez – Corajosamente bradou um dos mais acanhados pássaros desse entrevero voador.
-Jura? E no que você pensou – Disse o agora um pouco mais animado, pássaro rebelde.
- Nisso tudo que você acabou de falar.
-Nisso tudo o quê especificamente??? Cada vez mais animadamente!!!
- Em tudo o que você disse oras, que peixes são gostosos e importantes!!!
-Mas eu não disse nada disso droga! Quem disse isso foi ele ali!!! Bradou ensandecido o Che Pássaro.
-Ah sim...Bom, então foi com o que ele disse que eu já tinha pensado, e alguns são realmente gostosos mesmo. Sobre o que você falava mesmo?
-Eu falava basicamente sobre, sobre, sobre...Sobre Tudo Caramba! Eu falava basicamente na vontade de um algo maior, entende? Eu falava nos motivos de tudo o que nós fazemos, sabem? Por quê justamente hoje eu pensei, qual é o grande motivo de tudo o que nós constantemente e repetidamente fazemos, vocês conseguem me dar uma resposta? Conseguem? Conseguem achar o motivo para todos os anos fazermos sempre as mesmas coisas? Indo aos mesmos lugares, fazendo sempre as mesmas coisas? Conseguem?
- Eu diria que...E parou, um dos pássaros.
- Continue...Continue! Animou-se o Che Pássaro.
- Eu diria que a razão de tudo isso é...
- Vamos continue, continue! Encorajou o “Rebel Bird”
- Talvez não...
- Termine meu caro! Mostre o que você pensa! Energeticamente falou o pássaro.
- Talvez seja por que...- Todos olhavam para este insignificante ser, próximo ao que anos depois seria conhecido como a grande revelação dos pássaros, e até hoje é comemorado em muitos lugares com uma grande festa, que passa praticamente desapercebida pela maioria da população dos pássaros – Talvez seja por quê somos...Talvez seja por quê somos pássaros!!!

Depois disso, o que ocorreu foi uma súbita sensação de dever cumprido por parte de todos os pássaros envolvidos, menos curiosamente o que iniciou todas esta discussão.Depois disso tudo, eles alegremente retomaram seu rumo e só pararam quando chegaram no seu destino final.

Com relação ao que fez a grande revelação, que anos mais tarde foi considerada um marco nas relações entre os pássaros, e um evento histórico, como já mesmo havíamos dito, eu que escrevo e a voz na sua cabeça que você ouve quando lê estas linhas, como eu também já havia posto, (Eu e a voz) Virou um grande líder dos pássaros e continuou exercendo sua repetitiva função por mais alguns anos, até que se aposentou e continuava a discursar nostalgicamente sobre os anos em que foi o líder dos pássaros. Quanto aos outros, a maioria dos ouvintes da histórica conversa, alguns continuaram seguindo o grande líder por anos e anos e muitos tomaram o mesmo rumo que o líder, claro que com alguns benefícios a menos, e muitas feridas a mais, porém dois deles foram capturados por caçadores de pássaros, pois eram justamente dois exemplares muito belos, que devido a sua beleza acabaram por ser empalhado e hoje decoram belamente uma casa de campo de um dos seus compradores finais.

Por fim, o “Che” Pássaro, o pássaro Rebelde, ou seja, como queira chamá-lo teve um final de vida brilhante. Decidiu que jamais iniciaria qualquer tipo de discussão sobre um assunto espinhoso, promessa essa que ele quebrou anos mais tarde, quando calorosamente discutiu sobre o grande Deus pássaro, discussão esta que lhe garantiu mais alguns anos de desilusão pela frente, depois disso ele acabou por virar um pássaro que era considerado pelos demais como um maluco, foi nessa época que ele conheceu todos os cantos do Mundo, e encontrou mais alguns pássaros que partilhavam desta mesma aspiração dele, de questionar algumas coisas, porém eles não conseguiam chegar a um consenso, o que o deixou um pouco frustrado também, porém foi mais ou menos nessa época que ele conheceu sua bela pássara, que acabou por virar sua parceira para todas as jornadas, não que ela concordasse com tudo aquilo que ele dizia, mas os dois formavam uma bela dupla. Foi então que os dois pousaram na sacada da minha casa, e me contaram toda esta maravilhosa história. E não eles não eram verdes, tão pouco prolixos.

William Biagioli
São Paulo (03/07/08)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Do começo ao fim

-Tem um cigarro?
Essa foi a sua primeira pergunta. Não sua. Dele. Como dizem os americanos, It's a Yes or No question. Dessa simples questão, viria uma resposta não menos simples.
-Sim - Disse Ela.
Tomando quase que de assalto seu maço de cigarros Ele olhou nos olhos dela que sorriu timidamente com a cabeça apoiada pela mão esquerda. Pois a direita se preocupava em segurar decentemente o cigarro. Decentemente significa aquela pose elegante, que algumas mulheres conseguem fazer ao manusear um cigarro. Não sejamos besta de entrarmos no mérito do vício. Concordemos que é elegante e ponto.
E então quase que automaticamente, a corajosa pergunta do bravo "cavallero" iniciou uma conversa. Ela tinha 32. Era mais velha. Mas nem de longe aparentava a idade. A voz não era maltratada pelo cigarro, talvez o que indicasse que naturalmente não se tratava de um vício de anos, mas sim um aparato que compunha sua beleza. Seus cabelos não eram longos, na verdade eram curtos, não tanto quanto os do João.
Natural também era o jeito que a conversa rolava, percebia-se no ar, misturado a fumaça do cigarro, um maldito incenso e a transpiração da cerveja um clima propício para alguns copos de chopp e uma conversa despretensiosa.
Assim como ela, havia a outra. Sentava de frente a ela. Morena, cabelos longos, olhos pretos pequeninhos, não orientalmente falando, uma "olhera" que denunciava algumas noites de sono mal dormidas, talvez se preocupando demais em manter-se acordada durante o sexo, do que propriamente dito, se entregando ao prazer.
Enquanto isso, o senhor Otis Reading fazia os corações solitários e pénabundeados (valeu Reinaldo Moraes) cantar: "...Wearing that same old shaggy dress...", mas isso é papo pra rolar numa mesa do outro lado, onde dois caras discutiam na surdina, e eventualmente olhavam para essas duas mulheres. Não eram fascinantemente belas, mas o suficiente para deixá-los interessados.
Se eram caras interessantes ou não eu não posso afirmar com certeza cabalística. Mas até que não pareciam ser uns meia-guampas qualquer'es. Pareciam ser dois caras bem "apessoados", como vovó já dizia. Um deles se levantou e disse:
-Tem um cigarro?....

domingo, 6 de julho de 2008

Sobre a Mesa

Eu acabei de tentar recolocar um lápis rebelde em sua posição original (sobre a mesa). Posição original (sobre a mesa) da qual ele conseguiu vitoriosamente sair, tendo ido parar de cara no chão. Porém ele sistematicamente se recusou a aceitar minha ajuda oferecida, tendo ficado lá, deitado no chão. Depois de 4 (fracassadas) tentativas de perssuadir o lápis a voltar a sua posição original (sobre a mesa) compreendi que ele queria mesmo era ficar com a cara afundada no chão. Eu o respeitei por isso. No final disso tudo, tirei 3 conclusões: Fui incapaz de persuadi-lo a voltar para sua posição original (sobre a mesa). Desisti facilmente. E é um maldito lápis com convicções muito bem definidas.


William Biagioli.
Indolor
Incolor e
Inodoro.

6 de Julho de 2008.

Blibioteca Chinesa

Terminei ontem de ler o livro FÁTIMA FEZ OS PÉS PARA MOSTRAR NA CHOPERIA (editora Estação Liberdade). É o primeiro livro do paulistano Marcelo Mirisola, e reúne uma série de contos escritos durante os 'vinte e poucos anos' do autor. A escrita de Mirisola é conhecida por não ser 'boazinha' com o leitor. Pelo contrário. Com metáforas ácidas o autor critica a sociedade, em especial a classe média e seus absurdos, e não poupa ironias.




A obra mais famosa de Mirisola é o romance O AZUL DO FILHO MORTO (editora 34). Nele ele conta a sua história, com seu estilo característico. É uma escrita visceral, que não pede para ser lida mas que encanta quem a entende. As frases são cortadas abruptamente. Outras frases aparecem de forma inesperada. Isso torna Mirisola um dos autores brasileiros mais interessantes da atualidade. Tanto pelo estilo de sua prosa quanto pelo seu conteúdo. E por suas frases de efeito.


Sua última obra, porém, difere de todas as outras. Em JOANA A CONTRAGOSTO (editora Record) Mirisola se vê sozinho, sem o amor de Joana, e essa é a causa da existênca do livro. Ele chora. Pode-se dizer que o livro é isso: o choro de um cara que amou Joana. Pode não ser um grande enredo (e geralmente não há grandes enredos em seus livros), mas JOANA encanta pela sinceridade. Percebe-se claramente que o autor tenta se livrar da história, e por isso a escreve.



Obras do autor:

1998 Fátima fez os pés para mostrar na choperia
2000 O herói devolvido
2000 O azul do filho morto
2003 Bangalô
2003 O banquete (com o cartunista Caco Galhardo)
2005 Joana a contragosto
2005 Notas da arrebentação
2007 O homem da quitinete de marfim
2008 Proibidão



Na internet:



sábado, 5 de julho de 2008

quadro novo amanhã

Amanhã eu vou lançar um 'quadro' novo aqui no blog. Não sei qual vai ser o nome ainda. Mas eu vou comentar sempre sobre algum livro que eu li ou estou lendo. Acho que já tá mais do que na hora de eu fazer isso. Principalmente agora que eu passei da marca de cem livros na minha 'biblioteca' particular. Acho que serão boas dicas para quem está querendo ler algo novo. Best Seller não entra na lista, isso eu deixo para quem não lê comprar. Tem muita coisa variada, desde Asimov até Luis F. Veríssimo. Orwell a Nelson Rodrigues. Tem também uma porção de beats que só vem aumentando. Espero que fique bom. Mas só começa amanhã. Porque hoje os copos ainda estão vazios e precisam ser preenchidos para poderem ser esvaziados e voltar, assim, a sua forma bruta. É a lei natural das coisas. Dessa vez, a pé.

Abraços! E beijos para as mulheres, em especial a Tassi, porque eu acho que ela é a única mulher que lê esse blog.

Postado por William graças a Reinaldo Moraes - ou não

Acontece que eu tava navegando pelos arquivos deste singelo blog e eis que vi um rascunho deixado pelo Sr. William Biagiolli, abandonado, jogado às moscas, e sabe-se lá por quê. Então começei a ler e achei algo familiar no que estava lendo. Por isso resolvi postar, sem autorização do amigo William, o post que ele deveria ter postado. No final eu explico o porquê.


***


Estava eu navegando na internet quando encontrei esse texto simpático e creditado ao não menos simpático Reinaldo Moraes. Pra quem não sabe o Reinaldo Moraes é um escritor, e por sinaç, no momento eu estou lendo o livro Tanto Faz dele. Simplesmente genial. Esse texto é bem engraçado, só que como na Internet as coisas são no mínimo duvidáveis, esse texto aqui pode também não ser do Reinaldo Moraes, mas pela qualidade e sinceridade eu acredito que seja. Agora com vocês Toma Logo! pelo Genial melhor escritor do Brasil Reinaldo Moraes.



"...- Vai, Horácio! Toma logo!

- Eu não tomo nada sem antes ler a bula. Cadê meus óculos?

- Pendurados no seu pescoço.

- Isso é ridículo, Maria Helena. Ridículo!

- Então todos os homens da sua idade são ridículos, porque todos estão tomando. E não me puxa esse lençol, fazendo o favor. Olha aí o bololô que você me faz nas cobertas.

- A humanidade conseguiu crescer e se multiplicar durante milênios sem isso. Nós dois crescemos e nos multiplicamos sem isso. Taí o Pedro Paulo, taí o Zé Augusto que não me deixam mentir. Fora aquele aborto que você fez.

- Horácio, eu não vou discutir isso com você agora. Toma logo esse negócio!

- Isso aqui faz mal pro coração, sabia? Um monte de gente já morreu tentando dar uma trepadinha farmacêutica.

- Foi por uma boa causa. E não faz mal coisa nenhuma. Só pra quem é cardíaco e toma remédio. Você não é cardíaco, nem coração você tem mais.

- Não começa, Maria Helena, não começa!

- Pode ficar sossegado que você não vai morrer do coração por causa dessa pilulinha. Eu vi num programa da GNT um velhinho de 92 anos que toma isso todo dia.- Sério?

- Preciso de sexo, Horácio!

- Mas hoje é segunda, Maria Helena...

- Quero trepar. Foder. Ser comida por um macho de pau duro!

- Francamente, Maria Helena, que boca! Parece que saiu da zona

.- Quero ser penetrada, quero gozar!

- O sexo é uma ditadura, Maria Helena. A gente tá na idade de se livrar dela.

- Saudades da dita dura! Olha só, você me fez fazer um trocadilho de merda.

- Além do mais, Maria Helena, nós já tivemos um número mais do que suficiente de relações sexuais na vida, por qualquer padrão de referência, nacional ou estrangeiro. A quantidade de esperma que eu já gastei nesses anos todos com você, dava pra encher a piscina aqui do prédio.

- Com o esperma que você ordenhou manualmente, talvez. O que o senhor gastou comigo não daria nem pra encher um balde daqui de casa. Um penico, talvez. Até a metade.

- Maria Helena...

- E faz quase um ano que não pinga uma gota lá dentro!

- Sossega o facho, mulher. Vai fazer ioga, tai chi chuan. Já ouviu falar em feng shui, bonsai, shiatsu? Arranja um cachorro. Quer um cachorro? Um salsichinha?

- Quero um salsichão, Horácio! Olha aí: outra piadinha infame.

- É porque você está com idéia fixa nessa porcaria.

- Que porcaria?

- O sexo, Maria Helena, o sexo.

- Sabe o que mais que deu naquele programa sobre sexo, Horácio?

- Não estou interessado.

- Deu que as mulheres com vida sexual ativa têm muito menos chance de ter câncer. É científico.

- Come brócolis que é a mesma coisa, Maria Helena. Protege contra tudo que é câncer. Também é científico, sabia? E com azeite, com alho, fica uma delícia!

- A que ponto chegamos, Horácio! Eu falando de sexo e você me vem com brócolis com azeite!

- E com alho.- Faça-me o favor, Horácio!

- Maria Helena, escuta aqui, você já tem 50 anos, minha filha, dois filhos adultos, já tirou um ovário, já...

- Não fiz 50 ainda! Não vem não! E o que é que filho e ovário têm a ver com sexo?

- Maria Helena, me escuta! Depois de uma certa idade, as mulheres não precisam mais de sexo.

- Ah, não? Quem decidiu isso?

- Sexo nessa idade é pras imaturas, pras deslumbradas, pras iludidas que não sabem envelhecer com dignidade.

- Prefiro envelhecer com orgasmos.

- O que é que Freud não diria de você, Maria Helena?

- E de você, então, Horácio? No mínimo que você virou gay depois de velho, seu Boiola!

- Maria Helena! Faça-me o favor! Eu tenho que ouvir isso na minha própria casa, na minha própria cama, diante da minha própria televisão?

- Aliás, gay gosta de trepar! É o que eles mais gostam de fazer. Você virou outra coisa, sei lá o quê! Um pingüim de geladeira, talvez.

- Maria Helena, dá um tempo, tá? Tenho mais o que fazer.

- Fazer? Essa é boa. O que é que um funcionário público aposentado com salário integral tem pra fazer na vida, posso saber?

- Sem comentários, Maria Helena, sem comentários!

- Tá bom, sem comentários! Bota os óculos e lê duma vez essa bendita bula.

- Só que precisa de dois óculos pra ler isso. Olha só o tamaninho da letra. Se é um negócio pra velho, deviam botar uma letra bem grande. Pelo menos isso!

- Vira o foco do abajur para cá! Assim... melhorou?

- Abaixa essa televisão também! Não consigo me concentrar ouvindo novela. Mais... mais um pouco!

- Pronto, patrãozinho. Sem som. Vai, lê duma vez!

- O princípio ativo do medicamento é o citrato de sildenafil.- Sei...- Veículos excipientes: celulose microcristalina...

- Celulose vem da madeira. Pau, portanto. Bom sinal.

- Onde foi parar a sua pouca educação, Maria Helena?

- Vai lendo, Horácio! Depois conversamos sobre minha pouca educação.

- Cros... camelose sádica. Croscamelose. Castrepa, Maria Helena! Recuso-me a tomar um troço com esse nome. Deve ser alguma secreção de camelo. Se não for coisa pior.

- Não é camelose! Num tá vendo aí? É caRmelose. Deve ser algum adoçante artificial pro seu pau ficar doce, meu bem...

- Putz! Só rindo mesmo. A menopausa acabou com sua lucidez, Maria Helena!

- Troco toda lucidez do mundo por um pau tinindo de tesão por mim!

- Absurdo, absurdo!

- Que mais, que mais, Horácio?

- Dióxido de titânio.

- Ah, titânio! Pro negócio ficar bem duro!

- ...índigo carmim...- Índigo? Deve ser o que dá a cor azul da pilulinha.

- Será que esse negócio não vai deixar o meu pau azul, Maria Helena?

- E daí, se deixar? Você não sai por aí exibindo seu pênis, que eu saiba. Ou sai?

- Mas, e se eu for a um mictório público? O que é que o cara ao lado vai pensar do meu pinto azul?

- Diz que você é um alienígena, ora bolas! Que seu corpo está pouco a pouco se adaptando à terra, que ainda faltam alguns detalhes, ou explica que você é nobre, de sangue e pinto azul, ou não diz nada, ora bolas! Acaba de mijar, guarda o pinto azul e vai embora, pô!

- Escuta! Agora vem a parte que explica como esse petardo funciona.- Isso. Quero ver esse petardo funcionando direitinho.

- Presta atenção: "O óxido nítrico, responsável pela ereção do pênis, ativa a enzima guanilato ciclase que, por sua vez, induz um aumento dos níveis de monofosfato de guanosina cíclico, produzindo relaxamento da musculatura lisa dos corpos cavernosos do pênis, permitindo, assim, o influxo de sangue". Cacete! Corpos cavernosos? Já pensou, Maria Helena? Corpos cavernosos sendo inundados de sangue? Puro Zé do Caixão.

- Corpo cavernoso só pode ser herança do homem das cavernas. Vocês homens evoluem muito lentamente.

- Pára de viajar, Maria Helena! Parece que fumou maconha.

- Não é má idéia pra relaxar! Vou roubar do Pedro Paulo. Eu sei onde ele esconde. Podíamos fumar juntos.

- Eu já tô relaxado. Tô até com sono, pra falar a verdade...

- Lê, lê, lê, lê aí! Você já dormiu tudo que tinha direito nessa vida!

- Vou ler. "Todavia, o sildenafil não exerce efeito relaxante diretamente sobre os corpos cavernosos..."

- Não?

- Não, Maria Helena. Ele apenas "aumenta o efeito relaxante do óxido nítrico através da inibição da fosfodiesterase-5, a qual" - veja bem, Maria Helena, veja bem - "a qual é a responsável, pela degradação do monofosfato de guanosina cíclico no corpo cavernoso?". Ouviu isso? Degradação, Maria Helena! Dentro dos meus próprios corpos cavernosos... Degradante...

- Degradante é seu pau mole!

- Olha o nível, Maria Helena, olha o nível! Vamos ver os efeitos colaterais. Olha lá: "dor de cabeça". Você sabe muito bem que se tem uma coisa que eu não suporto na vida é dor de cabeça.

- Na cultura judaico-cristã é assim mesmo, Horácio! Pra cabeça de baixo gozar, a de cima tem que padecer!

- Não me venha com essa sua erudição de internet, Maria Helena! Estamos off-line!- Deixa de ser criança, Horácio! Se der dor de cabeça, você toma um Tylenol, reza uma Ave-Maria, canta o "Hava Naguila" que passa!

- Outro efeito colateral: "rubor". Rá, rá. Vou ficar com cara de quê, Maria Helena? De camarão no espeto?

- Se for camarão com espeto, tá ótimo! Que mais, que mais?

- "Enjôos". Ó céus. Enjôos...- Você sempre foi um tipo enjoado, Horácio! Ninguém vai notar a diferença.

- Vamos ver o que mais... hum... "dispepsia". Que lindo! Vou trepar arrotando na sua cara!

- Você me come por trás. Arrota na minha nuca...

- É brincadeira! É essa a sua idéia de amor, Maria Helena?

- Isso não tem nada a ver com amor, Horácio! Já disse! É profilaxia contra o câncer. E arrotar, você já arrota mesmo o dia inteiro, sem a menor cerimônia. Na mesa, na sala, em qualquer lugar.

- Como se você não arrotasse, Maria Helena!

- Mas não fico trombeteando os meus arrotos. Isso é coisa de machão broxa. Em vez de trepar com a esposa, fica arrotando alto pra se sentir o cara do pedaço.

- Como você é simplória, Maria Helena! Como você é... menor. Desculpe-me, mas acho que seu cérebro anda encolhendo, sabia? Ou mofando. Ou as duas coisas.-

Vai, Horácio, chega de conversa mole! E de pau idem. Pula os efeitos colaterais.

- Como, "pula os efeitos colaterais"? É porque não é você quem vai tomar essa meleca, né? Vou ler até o fim. Os efeitos colaterais são a parte mais importante. Olha lá: "gases". Que é que tá rindo aí?

- Do efeito cu-lateral. Desculpe-me. Esse foi de propósito. Não agüentei.

- Admiro seu humor refinado, Maria Helena! Torna você uma mulher tão mais sedutora, sabia?

- Obrigada, Horácio! Agora, quanto aos seus gases, pode relaxar o esfíncter, meu filho, numa boa. Tô tão acostumada que até sinto falta quando estou sozinha. Sério! Fico pensando:

- Ah, se o Horácio estivesse aqui, agora, pra soltar uma bufa de feijoada com cerveja na minha cara...

- Maria Helena, qualquer dia você vai ganhar o Oscar da vulgaridade universal.

- Vou dedicá-lo a você.

- Vamos ver que mais temos aqui em matéria de efeitos colaterais. Ah! "congestão nasal". Que gracinha! Vou ficar fanho, que nem o Donald. Qüém, qüém, qüém!

- Um pateta com voz de pato. Perfeito! Ridículo! Absurdo! Idiota!- Ridículo você já é, Horácio! E quem não é? Além do mais, é só calar a boca que você não fica fanho.

- Ah, tá! E se eu quiser falar alguma coisa na hora?

- Você não diz nada de interessante há mais de dez anos, Horácio! Vai dizer justo na hora de trepar?

- Eu não nasci para dizer coisas interessantes a você, Maria Helena!

- Hum. Ouve só; "diarréia"

- Quê? É outro efeito colateral dessa bomba aqui. Fala sério, Maria Helena! Isto aqui é um veneno! Não sei como vendem sem receita.

- Deixa de ser pueril, Horácio! Imagina se alguém vai ter todos os efeitos colaterais ao mesmo tempo! No máximo um ou dois.

- A caganeira e os arrotos, por exemplo? Ou a ânsia de vômito e os gases?

- Faz um cocozinho antes, pra esvaziar! Agora, Horácio! Eu espero.

- Eu não estou com vontade de fazer cocozinho nenhum, Maria Helena! Faça-me o favor! E olha aqui, mais um efeito colateral: "visão turva".

- Você bota seus óculos de leitura. E que tanto você quer ver que já não viu?

- Maria Helena, você não entendeu? Essa droga perturba seriamente a visão. Vou ficar cego por sei lá quantas horas, quantos dias! E tudo por causa de uma reles trepadinha? E se a minha visão não voltar? Vou andar de bengala branca pro resto da vida?

- Pode deixar que eu guio sua bengala, Horácio! Olha, pensa no lado bom da cegueira: você vai poder me imaginar 20 anos mais moça, trinta, se quiser!

- Maria Helena, desisto! Não vou tomar essa porcaria e tá acabado!- Dá aqui essa cartela, Horácio! Abra a boca! Beba a água! Engula! Pronto! Isso! Que foi? Engasgou, amor?! Tosse pra lá, ô! Me molhou toda! Que nojo! Quer que bata nas suas costas? Ai, meu Deus, Horácio! Você está bem?- Respire fundo! Isso, isso... E aí, amor? Melhorou? Morrer afogado num copo d'água ia ser idiota demais, até prum cara como você.

- Arrr! E com essa pílula monstruosa entalada na garganta! Ufff! Me dá mais água!

- Quanto tempo isso aí demora pra fazer efeito?

- Isso aí o quê?- A pílula, Horácio, a pílula!

- E eu sei lá!?

- Vê na bula, Horácio!

- Hum... tá aqui: "30 minutos".

- Ótimo! Dá tempo de ver o fim da minha novela.



Reinaldo Moraes.



"Ponhado no saiti por William Biagioli"


***


Acontece que este texto é mesmo do Reinaldo Moraes. E ele é muito mais longo. Continua com o término da novela, e depois do termino da novela vem o filme, e depois o termino do filme e, bem, ele é bem mais longo, mas não menos engraçado. O nome do texto também não é 'Toma Logo!', e não poderia ser mesmo. Acho que foi isso que deixou o William desconfiado. Porque em se tratando de Reinaldo Moraes esse título (toma logo) seria muito simplório para sua genial criatividade. O nome real do texto é 'Sildenafil'. Estranho? Não se você ler o texto na versão completa. Mas onde encontrar a versão completa? Simples. Em qualquer boa livraria. Este conto foi publicado no livro UMIDADE, do mesmo autor. E reúne várias outras histórias muito divertidas. Vale a pena conferir, experiência própria!



Ricardo Schneider graças a William Biagiolli e Reinaldo Moraes. Ou vice-versa. Ou Tanto Faz.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Detetivando...



Vamos aos fatos:

1.- A minha garrafa tá fechada (o que é extremamente difícil de fotografar!);
2.- A garrafa do William está no fim (o que é extremamente compreensível);
3.- O relógio do William marca exatamente meia-noite (isso significa que ainda estávamos sóbrios - ainda - o que não quer dizer nada)
4.- Há apenas uma pessoa em pé (que provavelmente é o garçom);
5.- O garçom veste uma camiseta amarela e verde (ou seja, essa foto foi tirada durante a copa do mundo, e antes do brasil ter sido elimidado);
6.- A bandeira do brasil ao fundo comprova a minha teoria sobre a copa do mundo;
7.- O fato de ninguém estar vestido com a camisa do brasil mostra que não havia jogo naquele dia;
8.- Os homens sentados na mesa número 03 eram os mais bacanas daquele lugar;

E você? Consegue encontrar mais algum detalhe?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Aos meus Colegas

Boa tarde.
Venho por meio desta postagem parabenizar meus colegas de Blog, pela criatividade, pelo belissimo conteúdo e pelas palavras bem escritas!
É difícil ser criativo? É difícil ter boas idéias? É difícil expressar-se através de palavras?
Não sei....

Caros colegas, por muitas vezes, vim cheia de idéias, cheia de pensamentos revolucionários, cheio de truques e papo furado, e por muitas vezes não postei NENHUMA palavra, ou quando postei, foram apenas palavras... nada relevante.

Por que a inspiração vem quando não temos onde anotá-la?
Quando pensei em me demitir deste blog, foi pensando em vocês, colegas. O nível atingiu o extremo e as vezes, minha raiz do cabelo, não acompanha tal ritmo.

Agora, ao som de Ney Matogrosso, resolvi deixar alguns conjuntos de letras (as palavras) para vocês.
Pura ADMIRAÇÃO!!!! Nada além.

Outro dia quis postar uma conversa que eu gostaria de ter com o Presidente da República. Mas havia um belo post de Ricardo naquele dia - e quem gostaria de ler uma conversa que eu tive em meus pensamentos, quando se tinha um texto produtivo?? Hein hein?

Não me arrisquei, e agora perdi o fio condutor daquele pensamento (que eu lembro que começou quando a seleção brasileira de futebol jogou BONITO contra a Argentina). MAs tudo bem!
É a vida.

Gostaria de informar também, que o TERCEIRO E QUARTO (continuação dos Primeiro e Segundo) já têm forma em minha cabeçona, que tenho histórias reais, idéias e ideais, e sonhos para contar, mas antes, gostaria de saber se posso ficar mais tempo aqui, ocupando uma cadeira nesse SENSACIONAL e PRODUTIVO blog!

Colegas?
Não pedirei minha demissão, mas queria saber se serei demitida?

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Das dores, oratório.

Atenção sinestésicos do palavreado. Desencadeadores do caos literárico. Pseudo-pensadores de um mundo melhor. Avant-Gardes da sabedoria alheia. Detetizadores do Conhecimento. Ou seja, quem quer que queira encaixar-se em alguns do simpáticos neo-adjetivos criados instantaneamente, sem nenhum aviso, ou pensamento prévio. Há quem diga que essa é a melhor maneira de se fazer as coisas. Eu teimo, que em alguns casos, não é.
Ainda há tempo, eu não sei o que é, muito menos o que nem é mais, ultimamente. Da mesma forma que o que ainda me irrita, é a tentativa de definir o que é, e o que não é. Digamos que é assim: Uma patrulha moral, um exército de pasteurização, uma multidão de desgostosos sujeitos tentando estatizar e "abaular" as arestas do pensamento livre. Querem pasteurizar meu pensamento! Querem pasteurizar o teu também caro amigo. Jura??? O Meu??? É meu caro, o teu! Pois foi como quem já disse aqui, "tenque". É isso aí, tenque, por que tenque. E assim como tenque ter quem faz tudo assim, pasteurizadão, tenque ter que não.
Pelo sim e pelo não, há algo de novo para acontecer. Ainda é sussurrado nos cantos escuros dos bares. Ainda é um grito afoito e preso na garganta de alguém que toca saxofone com a boca pelas ruas de uma gélida cidade. É o pensamento do tipo "bumba-meu-boi" de alguém que senta atrás de uma poderosa máquina e tenta redigir algo que no mínimo possa mudar o mundo. É o grito de angústia de quem tomado pela preguiça redundante de um domingo anseia com coisas melhores.
É no fundo no fundo, o gozo de um sujeito solitário que esporra tristeza.


William Biagioli, aos 20. Sem tirar o pé, nem a cabeça.

domingo, 22 de junho de 2008

Um cara triste ejacula a solidão na fila pra pagar

Agora eu sou um pilantra por acordar às quatro da tarde e com sono num domingo de inverno. Por eu achar o máximo acordar com a casa vazia. Por colocar um Elvis na vitrola e abrir uma cerveja importada que eu prevenidamente comprei com a grana que sobrou da garrafa de uísque. Por beber deliberadamente. Agora eu sou um pilantra por achar tudo isso o máximo.
Que eu sou um cara simpático. Gentil, as vezes. Mas eu não posso permanecer inalterado. Essa coisa de irrelevância, sabe? Claro que sabe. Você quer casar, quer casa própria, três filhos no máximo, um consórcio de carro zero. “Pro futuro, né? Pro Júnior entrar na faculdade. Vai ser doutor, doutor. Diz ‘oi’ pro tio, Junior.”
Acho que estou ficando morto aos poucos. Eu to me sentindo assim. Eu olho para os lados e não consigo me enquadrar em nenhum estereotipo de pessoas. As pessoas têm me olhado torto, elas viram a cara. As mulheres fogem de mim. Elas não querem ouvir minha conversa. Nem o barman me agüenta mais e eu continuo achando que sou melhor do que os outros pensam. As pessoas me evitam. Talvez por vingança. Talvez por eu sempre ter evitado elas, agora estou levando o troco.
Eu me sinto deslocado. Porque apesar de ninguém gostar de mim, eu gosto. Eu gosto do meu jeito. Das minhas manias. Do jazz e do uísque. Das unhas roídas, dessa barriga acumulada ao longo dos anos. Eu gosto de saber quem é Buckowski, de ter livros, de ler. Eu gosto de gostar de ser assim. De não me importar com o que os outros pensam. E não dá pra levar a sério uma banda que toca pagode, axé, sertanejo e reggae. Não dá pra levar a sério quem acha isso o máximo.
Que eu não sou de sair por aí contabilizando beijos para fechar o balanço. Mas pergunto “dá o cu?”, embora eu saiba que cu não se pede, se come. Que eu prefiro as miras técnicas aos programas de domingo. Que eu não coloco gelo no uísque. Que eu vou com sede ao pote. Que eu prefiro um blues ao hino da bandeira. Que tudo o que eu vivo, vivo pra contar. Só que tá sendo difícil achar os adjetivos certos.
Eu vou fazer o quê se não tem mais ninguém por perto que goste do que eu gosto? Se todo mundo me critica por não fazer a barba? Se eles querem que eu emagreça? Ta todo mundo mudando de assunto. E nessa, ninguém sabe o que falar. Mas o errado sou eu?
Um cara espera anos para ser contemplado num consórcio. ‘Pagar devagarinho’. E eu sou o maluco. O caixa do banco vai passar a vida inteira contando dinheiro dos outros. Eu sou o doido, e a vendedora vai mostrando a liquidação de verão, a coleção de inverno, aquela blusa da vitrine, tem maior?, e de outra cor?.
Deixa eu ver no estoque.
“Que o cliente tem razão. Que ‘tenque’ aumentar as vendas. A meta, sabe? E tem a comissão também. É boa. Dá pra pagar o mercado e sobra pro salão. ‘Tenque’ ficar bonita pro marido, né.”
É, é...‘tenque’.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Das serenatas restaram os tímpanos.

Deixei jogado num canto meus livros e caderno. Um único caderno, porque um cara como eu não teria mais. Deixei eles lá. E pra ser sincero não to nem aí pra eles. Não que eu desconsidere a importância. São importantes. Assim como atendentes de telemarketing também são. Ou seja, foda-se. Eu não to nem ai se isso vai me fazer falta ou se eu to viajando nas minhas idéias. Foda-se. Foda-se tudo e todos. Eu também. Você também.
O que me irrita não são os livros nem o caderno. Eu gosto de livros. Tenho vários. Leio vários. Leio Buckowski, Henry Miller, John Fante. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo. Porque eu não sou de metodologia, e acho uma bosta quando me organizam. Só que eu também acho uma bosta as tardes de sábado no clube. As manhãs de domingo em família. As formas como as pessoas encontraram para amenizarem suas perdas e comemorar seus ganhos. Amenizar o que? Ganharam o que?
Eu não vou mais pegar num lápis. Não vou mesmo. Os livros técnicos que eu joguei naquele canto vão apodrecer ali a partir de agora. Eu não ligo. Eu não quero ligar. Esse é o problema. Sei lá, eu acho que sou uma pessoa cheia de problemas. Eu acho que na verdade eu sou um problema.
Eu me recosto na cadeira e fico encarando tudo o que vejo. Mas não ergo um dedo pra mudar as coisas de lugar. Fodam-se as coisas. Sempre é assim: as coisas aqui, as coisas ali, as coisas lá. E nós. E as pessoas? E você? E eu? E nos dois juntos nas tardes de sábado, bebendo vinho e ouvindo blues? Você gostaria disso não é? Gostaria sim. Eu sei que sim.
Mas as tardes têm sido cada vez mais frias. E os domingos cada vez mais vazios. E você não vem mais com aquele sorriso me pedindo um beijo. E só ta querendo ouvir samba. Nem fumar não fuma mais. E até Paulo Coelho resolver ler. Assim não vai ter jeito. Eu gosto de você, ou gostava, sei lá. Sei lá porque nem sei mais quem você é. Porra, volta!
Os livros vão ficar ali, naquele canto. Você sabe que eu não vou mover um dedo pra pega-los. E você sabe que eu precisaria. Mas só você pode me fazer mudar de idéia. Só você. Você sabe disso. Claro que sabe. Você sabe tudo de mim. Acho até que você é um pouco de mim. Ou era. Não sei. Eu já não sei. Você ta entendendo? Ta entendendo? Porque eu não to. Serio, não to mesmo. Eu já não leio o que escrevo nem ouço o que digo que é pra não ter que pensar demais. E eu não to mais nem aí pro que os outros pensam.
Porra, eu preciso de você! Você não vê? Mas eu preciso de você aqui comigo, não galinhando por ai em qualquer canto. Me ajuda a continuar. Me ajuda. To implorando, você ta vendo. Eu to de joelhos, vê se pelo menos dá a mínima. Pega minha mão e me ajuda a levantar. Acende a luz, liga o rádio. Tira a tv desse canal de putaria. O blues já ta na agulha. Vinho eu comprei. Falta só você. Me tira daqui. Me leva pro céu pela última vez. Me leva pra sua cama e tira a roupa. A minha roupa. A sua roupa. Pela última vez. Pela última vez, e nada mais.

domingo, 8 de junho de 2008

*

- Vai sair nesse frio?
Isso era o tipo de coisa que me deixava irritado. Nada contra sair no frio, mas a pergunta em si me arrependia profundamente de já não estar lá fora. Não era uma pergunta normal, como ‘acompanha fritas?’ ou ‘e ai, comeu?’. Não. Essas perguntas são corriqueiras e por isso, vindo deles, não fazem a menor diferença. O que me acalma, todavia. Acalma não fazer diferença. Mas a pergunta em questão tinha outra intenção.
- Vai sair nesse frio?
O frio gelava mais lá fora que aqui dentro, o que pode parecer natural, e de certa forma é, porém a temperatura aqui dentro era baixa, muito baixa, e o fato de lá fora ser mais frio que aqui dentro me fazia pensar que eu teria sérios problemas caso colocasse os pés do lado de lá da porta.
Aquela porta estava velha, é verdade, e caindo aos pedaços, o que a fazia quase parte da família. Não fosse o fato dela ainda poder permitir ou proibir a gente de fazer algo, no caso passar. Mas ela só fazia isso com a ajuda de alguém que a fizesse abrir ou fechar, o que a tornava novamente um membro da família. A manipulação, a dobradiça.
- Vai sair nesse frio?
Vô, vô. E não me encha o saco, porra! Era isso que eu queria ter dito, mas, obviamente não disse. Em parte por que eu não sou de me deixar levar pelos sentimentos com esse pessoal, e em parte porque eu não tava com saco pra dizer nada. Porque é sempre assim que acontece, a gente tenta fazer algo, mas não consegue fazer sem que tentem impedir. Geralmente é com palavras. Geralmente são eles. Geralmente não conseguem. Mas geralmente é aqui que tudo começa.
- Vai sair nesse frio? Tô falando com você!
Assim que você perde o respeito por si próprio, passa também a não respeitar os outros. E nada do que digam ou façam pode mudar sua opinião e seu modo de agir, falar e ser. Pelo menos era isso que eu achava que aconteceria quando eu passasse por aquela velha porta podre de madeira. Mas ela precisava ser aberta, e alguém tinha de fazê-lo. Óbvio que fui eu. E óbvio que eu queria levar a porta embora comigo para que aquele vão não se fechasse enquanto eu estivesse fora. Mas a dúvida em saber se ela estaria aberta ou fechada quando eu voltasse (se é que algum dia eu iria voltar), isso me excitava.
Resolvi deixá-la ali.
Eu agora queria era conhecer o mundo. Eu agora queria era viver pra mim. A vida começava a ser a minha mais nova namorada, e nossa paixão estava em chamas. Ardendo ao som de um velho blues.
- Vô sim, vô sim.
Eu podia. Eu fui...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A última volta.

Hoje é a última volta, caros visitantes deste humilde blog. Como é doce o sabor da última volta, você corre a semana inteira, subidas, descidas, curvas em ascendente, curvas em decrescente, umas mais abertas, outras mais fechadas, é também natural que em uma ou outra volta haja uma derrapada, afinal de contas para muitos ainda são as primeiras voltas, fato esse que não exclui aqueles que já estão até tontos de dar voltas, também podem derrapar. Derrapar nada mais é do que ficar de frente para tudo aquilo que você já percorreu, serve pra você olhar pra trás e saber que ainda pode ir em frente. Enfim, hoje é a última volta, e o doce sabor da bandeirada final já apruma no horizonte, e sinaliza simpaticamente com alguns copos de cerveja enchugados, muitos sorrisos e a comemoração pelas ruas da nova conquista do novo herói. Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos assim.

William Biagioli.

A última volta.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

3x1

Pois é minha gente... 3 a 1...
São três, contra um, são dois a mais que o único um...
Não importa. Ontem o Timão entrou em campo determinado, centrado, visando um único objetivo: sair com a vitória.
Os corinthianos lotaram o estádio do Morumbi, numa noite com temperaturas mais amenas. 70 mil pessoas esperançosas, roendo unhas, e com o coração na mão.
O jogo em si não foi como o esperado. No 1° tempo o Sport não saiu para o jogo como deveria sair, não encontrou um caminho, não estava bem posicionado dentro do gramado, não criou, e não levou perigo ao gol do Felipe.
Já o corinthians, juntamente com seu 12° jogador (a torcida), entrou embalado, disposto, com raça...
Alessandro entrou tranquilo na partida, sem muito destaque, enquanto Dentinho, desesperado por um gol, estava com fome de bola (vulgo fominha).... e não é que depois de alguns bons jogos, ele achou o dele??? O placar foi aberto com um gol do, então passa-fome, Dentinho...

A galera foi a loucura....
Mesmo tendo tomado um gol, o Sport nao reagiu, não foi buscar..
o Juizão bem que tentou ajudar o pessoal da Ilha do Retiro, mas o Timão estava decidido: VITÓRIA...
Claro que o camisa 17, com sabor de 10, também acharia o dele... Herrera.... DOIS A ZERO...

Assim terminou o 1° tempo.
Na segunda parte, o jogo não foi muito melhor.
O Corinthians entrou meio mal, talvez acomodado com os 2 a zero...mas depois reagiu e voltou a ativa.
O Sport criou um pouco mais...
E as substituições começaram...Trocaram 6 por meia dúzia...
Mas foi depois que Acosta, o ex camisa 10, atual 25, entrou em campo, que o Timão fechou a possivel goleada (mas perdeu muitas chances).
Uma sensasional jogada de Herrera... um contra-ataque BONITO.... Herrera, marcado por 3 recifenses, olhou para sua esquerda e viu Acost inha, pronto, livre para fazer o dele...
Em um passe redondinho a bola achou Acosta que mandou pro fundo pro gol...
TRES A ZERO seria bom demais.... Mas pra que ser bom demais?

Aos 44 do segundo tempo, por um vacilo da defesa (claro...) o Sport fez o dele...
Com um gol fora de casa, o Sport ganhará moral e animo para a proxima partida.


Agora dia 11/06, o ciclo se fechará...
São mais 90 minutos de pura emoção...
Quem ganhar, garante vaga na taça libertadores 2009.
Boa sorte




Por Tassiana Ghorayeb Resende em um ato jornalístico. Esboçando sua vontade de ingressar no mercado esportivo.